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Á Distância Entre Nós: Solidão e Masculinidades

TIPO DE PROJETO

Exposição - Performance

DATA

23 Junho 2026

LOCAL

Casa Comadre, Rio de Janeiro

ARTISTA PARTICIPANTE

Gian Gigi Spina

Dois homens entram no tatame. Primeiro se observam. Depois se aproximam. O confronto que se anuncia à distância transforma-se gradualmente em contato. Primeiro se domina o braço, depois a perna, em seguida, o pescoço. Um tenta neutralizar o outro, submeter o outro. No jiu-jitsu, o combate se constrói a partir de uma relação paradoxal: para dominar é preciso confiar seu corpo ao outro. O corpo é constantemente entregue ao mesmo tempo que protegido do adversário, que se torna simultaneamente parceiro de treino e oponente. O objetivo é limitar os movimentos do outro, conduzi-lo à frustração e, por fim, ao reconhecimento de sua derrota. Enquanto os corpos se entrelaçam no tatame, uma narração surge como fluxo de memórias, desejos e frustrações. Aos poucos, torna-se evidente que aquilo que está em jogo ultrapassa a luta física.
A performance de Gian Gigi Spina parte justamente das tensões presentes no jiu-jitsu para investigar formas de masculinidade construídas a partir do controle e da defesa. Assim como o lutador aprende a proteger pontos vulneráveis do corpo e a não demonstrar dor durante o combate, encontramos aqui um personagem que transforma a contenção emocional em sua única forma de sobrevivência. Inserido em uma cultura onde se cultiva uma postura dada como masculina, onde virilidade, força e autocontrole são constantemente reafirmados, ele aprende a esconder aquilo que sente, a desconfiar da vulnerabilidade e a tratar a exposição emocional como uma ameaça. O que inicialmente se apresenta como proteção acaba tornando-se aprisionamento. Sentimentos que não encontram espaço para existir são empurrados para dentro, retornando sob outras formas: pela raiva, pela violência e pela necessidade permanente de confronto. Como no tatame, a defesa de si passa a organizar toda a sua relação com o mundo.
Ao longo da performance, encontramos um personagem construído sobre essa impossibilidade. Um homem incapaz de acessar plenamente seus próprios sentimentos, enrustido diante de seus afetos e de sua própria compreensão de si. Em diferentes momentos, emerge o desejo de aproximação, de reconhecimento e de pertencimento. Há uma tentativa contínua de compreender a si mesmo, um esforço para escapar das estruturas que o aprisionam. No entanto, toda vez que se aproxima dessa possibilidade, algo o faz recuar. A admissão do afeto converte-se em desconforto. O cuidado transforma-se em ameaça. A vulnerabilidade retorna sob forma de agressividade.
A figura que na verdade aparece está distante da imagem que procura projetar para o mundo. Por trás da armadura da força - da casca grossa - encontra-se um homem cuja identidade parece depender da vitória perante o outro. De tanto cultivar a figura do oponente, do competidor e do inimigo, torna-se incapaz de reconhecer suas próprias conquistas. Seu olhar permanece voltado para aquilo que o outro possui, para aquilo que o outro alcançou, para aquilo que o outro representa. Como em uma luta que nunca se encerra, a comparação ocupa o lugar da experiência, tornando impossível qualquer sensação duradoura de realização.
O que inicialmente se apresenta como um combate entre dois corpos revela-se, aos poucos, como um embate interno. A disputa deixa de acontecer apenas no tatame e passa a operar dentro do próprio sujeito. A masculinidade construída sobre a negação dos afetos e sobre a necessidade permanente de afirmar controle produz indivíduos incapazes de reconhecer suas próprias fragilidades. O que a performance evidencia é que esse cultivo da postura que convencionamos chamar de masculina não é inofensivo. Ele cobra um preço que se manifesta nas relações sociais, mas também na experiência íntima de quem a sustenta. Ao aprender a proteger-se do mundo, esse personagem acaba tornando-se inacessível para si mesmo.

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