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memento mori

TIPO DE PROJETO

Exposição Coletiva

DATA

07 de Março, 2026 - 06 de Junho, 2026

LOCAL

Casa Comadre, Rio de Janeiro

ARTISTAS

Anna Bella Geiger, Anna Costa e Silva, Anna Livia Taborda Monahan, Anna Maria Maiolino, Arorá, Carlito Carvalhosa, Laura Vinci, Lenora de Barros, Lucas Simões, Maria Klabin, Mariana Maurício, Marlan Cotrim, Maya Dikstein, Nathan Braga, Rodrigo Braga, Thix e Zé Carlos Garcia.

memento mori nasce de uma necessidade de repensar nossa finitude – de atravessar a vida de uma forma que reavalie nossos medos e arrependimentos. Foi a partir da notícia de uma doença letal de uma pessoa querida que colocamos em perspectiva não só a fragilidade e a injustiça da perda, mas também a beleza de viver e de estar vivo.

Esse processo de pesquisa e reflexão nos atravessou por cerca de um ano. Nesse período, fomos tocadas por diferentes dimensões da morte: a perda de pessoas próximas, o luto das transformações que vivemos ainda em vida, o tempo passando no corpo, assim como as muitas tentativas humanas de permanecer. Pensamos nas formas pelas quais buscamos nos eternizar nas obras de arte, nas nossas marcas no mundo, nas memórias, nos vínculos, nos legados e nos descendentes. E também em todas as construções mundanas que criamos para nos orientar e, ao mesmo tempo, nos anestesiar diante da finitude – quase como uma tentativa de enganarmos a morte. Pois a angústia de se perceber mortal talvez seja uma das consciências mais sofisticadas e mais dolorosas do ser humano.

Atravessa-se o luto por meio de seus estágios, nas idas e vindas entre a raiva, a falta, a dor, a perda de sentido e do sentir. E, enfim, a aceitação: o tempo necessário para que o luto se transforme e, em algum momento, também surja a aceitação de seguirmos, de continuarmos e, principalmente, de nos reinventarmos. Luto é dor, mas também é um movimento. Como lidar com a dor profunda da perda? Como disse Patti Smith, o luto é como uma ferida sagrada, que nunca fecha e, por isso, devemos zelar por nossa comoção, honrá-la. Ele pode se tornar uma força de transformação, para reconhecer aquilo que se perdeu e para reverenciar o que aquela presença representou em nossa vida. A potência do luto talvez esteja justamente no que vem depois dele. A tristeza existe porque algo foi profundamente importante. Algo que marcou, que transformou, que deixou rastros em quem somos.

Há uma forma de eternidade que não está na permanência individual, mas na circulação da vida. Está também nos gestos que afetam o outro, movimentos que se desdobram em novos movimentos, reverberando nas relações que essa pessoa estabelece e nas que ainda virão. Aquilo que fazemos, dizemos ou tocamos não termina em nós. Espalha-se, derrama-se, transforma-se, replica-se. A vida continua a se mover através dessas pequenas transmissões, como uma energia que passa de corpo em corpo, de relação em relação. A finitude da vida é individual e pessoal, ao mesmo tempo que também é encarada de maneira comum a todos, tanto por ser uma experiência vivida por todos quanto por nos fazer pensar na possibilidade do fim coletivo.

A morte é o desconhecido, e talvez para nos aproximarmos desse inexplorado vivamos inúmeros encerramentos enquanto vivos. A perda de outros, os caminhos dos quais abrimos mão, as escolhas que nos desviam, e também as ações que atravessam nossas vidas e que estão além do nosso controle – tudo isso é como uma maneira de irmos nos acostumando, pouco a pouco, com nosso próprio fim.
Transformar o fim em tese expográfica surge como uma forma de elaborar nosso tempo no mundo. Um processo atravessado pelas perdas que vivemos, misturando pesquisa artística e teórica com percepções, dogmas e histórias pessoais. A curadoria se constrói como um campo aberto de referências teóricas e afetivas que surgiram ao longo desse percurso: livros lidos, séries assistidas, cartões postais coletados, fragmentos de pensamento que atravessaram nosso cotidiano. Apresentá-los é também compartilhar parte do caminho que percorremos ao pensar sobre a vida e a morte. Partimos de experiências humanas comuns.
A ideia clássica de memento mori, “lembra-te de que vais morrer”, não é apenas filosófica. É também religiosa, cultural, popular e cotidiana. Mais do que um conceito, é um modo de reorganizar o olhar sobre a vida e sobre o que realmente importa. Mas essa lembrança não se dá de maneira linear. Ela aparece em fragmentos. É preciso tempo para digerir essas constelações de experiências e conexões, para que a ideia possa se formar, às vezes, ao longo de uma vida inteira.
Ao mesmo tempo, talvez seja igualmente necessário esquecer-se da morte por instantes, abrir espaço para o esquecimento, para que possamos viver plenamente o presente e a intensidade de cada acontecimento.
Aceitar a vida como ela é não significa acomodar-se a ela. Há uma diferença entre o comodismo e a aceitação. A aceitação pode ser também uma forma de lucidez, de reconhecer o próprio lugar no mundo, de compreender os limites das coisas, de permitir que a vida se revele sem a necessidade constante de lutar contra a corrente – trata-se menos de passividade e mais de presença.
E talvez seja aí, na passividade, na acomodação, que esteja a verdadeira morte, quando não existe impulso de agir, fazer, criar ou viver. Nosso momento aqui é breve; quando a vida é comodismo, o tempo passa sem pulsação, como quem não erra por falta de não fazer e que se senta na cadeira para ver a vida passar – aí, sim, é quando você está morto sem estar.

A vida vive.

Curadoria
Gabriela Davies e Maíra Marques

Produção
Marcella Klimuk

Fotos por
Gabi Carrera

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