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Reparto

TIPO DE PROJETO

Exposição Coletiva

DATA

01 de Setembro, 2026 - 28 de Novembro, 2026

LOCAL

Casa Comadre, Rio de Janeiro

ARTISTAS

Adriana Varejão, Ana Mendieta, Celeida Tostes, Claudia Casarino, Colectivo Textileras MSSA, Darks Miranda, Escola Viva Baniwa, Franziska Pierwoss, Jarbas Lopes, Joana Hadjithomas e Khalil Joreige, Lenora de Barros, Lidia Lisboa, Maria Antonia, Maria Magdalena Campos-Pons, Mona Hatoum, Mônica Ventura, Tamar Ettun, Thais Desana e Tracey Emin.

Este não é um texto de síntese, nem pretende chegar a uma conclusão. É um texto de iniciação. Não apresenta um caminho já construído, mas abre perspectivas, e perguntas que se moldam ao longo do crescer. As questões reunidas em Reparto não cabem em um único texto e tampouco poderiam ser totalmente contempladas por ele. O que fazemos aqui é abrir algumas das muitas perspectivas possíveis para pensá-las.

Essa exposição nasce do encontro de três pessoas que se situam diante da maternidade de lugares muito distintos: uma vive a experiência de criar um filho sozinha; outra compreendeu, ao longo do tempo, que não desejava ser mãe; e uma terceira reconheceu recentemente o desejo de ter um filho. Esses lugares não são respostas nem pretendem representar todas as possibilidades. São pontos de partida para perguntas que levamos à exposição: como se formam o desejo de ter um filho e o desejo de não tê-lo? O que a maternidade transforma e o que pode existir fora dela? De quantas maneiras podemos cuidar, criar e sustentar outras vidas? O que repartimos quando nos responsabilizamos por alguém ou por algo que colocamos no mundo? E como reconhecer que aquilo que criamos já não nos pertence?

Reparto contém dois movimentos: “re-parto” sugere a possibilidade de parir novamente e também de voltar a nascer. O nascimento deixa de ser entendido como um acontecimento único, restrito ao início da vida, e passa a acompanhar as muitas transformações pelas quais atravessamos. Nascemos quando chegamos ao mundo, mas também quando mudamos nossa maneira de existir, quando criamos alguma coisa ou quando precisamos nos fazer novamente. Quantos nascimentos cabem em uma mesma vida? Quantas vidas e reencarnações, espirituais ou simbólicas, atravessamos enquanto ainda somos a mesma pessoa?

A Terra também nasce continuamente. Nada permanece inteiramente o mesmo, embora algo sempre permaneça. Mesmo o parto biológico não produz apenas o nascimento de uma criança. Ao parir, uma pessoa também nasce em uma condição que antes não existia, assim como todos que estão em volta deste acontecimento: pai, irmãos, tias, avós, amigos. Uma comunidade também nasce junto com um bebê, porque novas relações se formam e outras passam a ocupar novos lugares de cuidado. Nesse movimento, cuidar da criança também implica cuidar de quem cuida.
Mas e quem é essa criança de que falamos? Em algum momento, fomos nós. Recebemos matéria de quem nos gerou, histórias, cuidados e heranças de muitas outras pessoas. Carregamos algo de todas elas, mas não somos apenas a sua soma: inauguramos uma existência singular.
No texto de Julia Debasse sobre o puerpério, ela conta que sua bisavó entrava sozinha no quarto para dar à luz e a parteira só podia entrar depois, não para receber o bebê, mas para cuidar da mulher, como se fosse ela quem também estivesse se parindo. O resguardo aparece, então, como o tempo necessário para acolher alguém que acabou de nascer de si mesma.

“Reparto” é uma ação de partilha e distribuição. Repartimos aquilo que sustenta a vida: o alimento, a água, o leite, o conhecimento, o trabalho, o cuidado e o próprio corpo.

Repartir experiências é uma forma de cuidar. Muito do que sabemos sobre cuidar chega até nós porque alguém, antes, viveu, aprendeu e encontrou uma forma de passar adiante. Esse conhecimento nem sempre vem como orientação direta; às vezes aparece em uma história, em um gesto repetido, em uma lembrança, em algo que só compreendemos quando atravessamos uma experiência parecida. Uma experiência não se transfere por inteiro, mas vão abrindo espaço para que o caminho se torne menos solitário. Ao circular, ela também muda: encontra outros corpos, outras histórias e outras formas de ser vivida.

Repartir pressupõe também uma quebra. Se queremos ser inteiros, precisamos abrir mão daquilo que também precisa existir por inteiro. O que um dia foi parte de nós já não nos pertence: torna-se parte do mundo.

Mas repartir também significa aceitar que aquilo que saiu de nós já não nos pertence inteiramente. Uma criança, uma obra, uma ideia, uma lei carregam algo de quem os criou, mas, ao irem para o mundo, passam a existir para além dessa origem. Uma criança cresce e se torna sua própria pessoa; uma obra deixa o ateliê e encontra outros olhares, outras leituras, outras vidas. Há na mãe e na artista uma potência semelhante: ambas fazem existir algo que antes não existia e, em algum momento, precisam permitir que essa criação se separe delas. Talvez seja aí que a criação se aproxime de uma ideia de divindade como capacidade de colocar algo no mundo. Criar é colocar algo no mundo e, ao mesmo tempo, aceitar que esse algo seguirá adiante, transformado por tudo aquilo que encontrar pelo caminho.

Se cuidar não significa possuir, essa responsabilidade também pode ser compartilhada. Quando contemplamos a ideia de maternar, questionamos a sustentação social imposta sobre a própria etimologia da palavra. A criação e o cuidado não devem pertencer apenas a um gênero, nem a uma única forma de família.

Será que ainda precisamos procurar ou inventar uma palavra capaz de incluir todas as pessoas que participam dessa responsabilidade, sem determinar previamente seu gênero ou seu lugar?
A dificuldade de encontrar ou usar cotidianamente uma palavra comum revela como o cuidado foi distribuído historicamente. Enquanto maternar parece nomear uma prática reconhecida e esperada, paternar e parentar ainda soam como funções em construção. Ampliar essas palavras é também ampliar a imaginação sobre quem pode cuidar, sustentar e participar da formação de uma vida.
Talvez essa palavra já exista e seja mais simples: criar. Criar significa tanto fazer algo existir quanto sustentar seu crescimento. Nem toda pessoa que cria é mãe, e nem toda criação precisa ser compreendida como uma forma de maternidade. Gestar acontece em um corpo; criar exige outras mãos.

Em diferentes povos indígenas das terras baixas da América do Sul, existe a chamada paternidade partível: a compreensão de que uma criança pode ser formada pela contribuição de mais de um homem durante a gestação. Assim, quando uma mulher mantém relações sexuais com diferentes homens durante o período da concepção e da gestação, cada um deles pode ser reconhecido como participante da formação da criança. Em algumas dessas sociedades, os diferentes homens são reconhecidos como co-pais e podem compartilhar responsabilidades por seu cuidado. A filiação deixa, assim, de estar necessariamente concentrada em um único pai e revela que existem outras formas de condicionar origem, parentesco e cuidado.

Na teoria da bolsa da ficção, Ursula K. Le Guin parte da ideia do objeto de armazenar como a primeira tecnologia do mundo: algo capaz de carregar água, alimento, sementes, aquilo que sustenta a vida. Sua forma pode ser de uma mão que segura ou de uma bolsa que carrega um bebê próximo ao corpo. Com o tempo, essa bolsa também vai se enchendo de experiências, memórias e escolhas, formando a bagagem que carregamos pelo caminho. Mas toda mão que segura também pode se abrir. Abrir mão contém, então, um gesto duplo: oferecer as mãos para sustentar e cuidar, mas também abri-las para não reter.

Toda trajetória é feita daquilo que escolhemos levar conosco, mas também do que precisamos deixar para trás, para que outras possibilidades de vida possam nascer.

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A exposição Reparto integra o festival Eu não serei o ovo que você quebra: sobre nascimento, o corpo e as evidências que ele carrega, com a abertura da exposição Reparto. O festival integra o Evidence, iniciativa internacional do Center for Human Rights and the Arts at Bard, em associação com o Fisher Center LAB. No Brasil, é realizado pela TAP – Temporary Art Platform, sob direção artística de Amanda Abi Khalil, em parceria com o Instituto Comadre.

Artistas Participantes: Adriana Varejão, Ana Mendieta, Celeida Tostes, Claudia Casarino, Colectivo Textileras MSSA, Darks Miranda, Escola Viva Baniwa, Franziska Pierwoss, Jarbas Lopes, Joana Hadjithomas e Khalil Joreige, Lenora de Barros, Lidia Lisboa, Maria Antonia, Maria Magdalena Campos-Pons, Mona Hatoum, Mônica Ventura, Tamar Ettun, Thais Desana e Tracey Emin.

Curadoria: Gabriela Davies e Maíra Marques
Direção Artística do Festival: Amanda Abi Khalil - Temporary Art Platform
Produção: Marcella Klimuk

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